Time Lord Victorious | Leia o conto “O Alvorecer dos Kotturuh”

Depois de algum atraso, finalmente a BBC liberou a newsletter com o conto The Dawn Of The Kotturuh – e confesso que eu esperava um pouco mais. Não, eu não estou dizendo que é ruim; pelo contrário. Mas pelo tanto de demora, e pelo título, eu esperava outra coisa. Mas vou deixar que vocês tirem as suas próprias conclusões.

São duas partes: uma que está no email e outra que está num link protegido por senha.

No email temos uma mensagem do Data Worm, explicando que por conta da busca pelos dados que ele procurava ele está sendo perseguido pelos Archivians e que, portanto, essa deve ser a última vez que ele entra em contato – o jeito engraçadinho da BBC contar que não teremos novas partes de TLV via newsletter tão cedo.

Hey,

Eu finalmente consegui! Eu invadi o Arquivo de Islos e encontrei o conhecimento proibido que você estava procurando.

Essa é a boa notícia.

A má notícia é que os Archivians descobriram. Eles me aprisionaram no sistema e estão me caçando. Então essa deve ser a última vez que você ouve falar do seu amigo data worm.

Mas hey, eu sou só uma inteligência artificial, e daí que eu estou sendo caçado para ser apagado? [emoji chorando]

Eu fiz meu trabalho e descobri a verdade sobre os Tempos Sombrios e O Alvorecer dos Kotturuh, desculpe por isso ter levado algum tempo para chegar até você, mas eu consegui criar uma backdoor particular no Arquivo de Islos. Então, clique nesse link para saber mais. A senha é darktimes, aliás. Não deixe que as minhas sub-rotinas sendo destruídas por rebooters atrapalhe o seu entretenimento.

Saudações

Seu Data Worm (#RIPEu)

Quando você clica no link, ele te manda para essa tela. É só colocar a senha darktimes e dar enter que você chega ao conto propriamente dito.

Confesso que eu esperava um arquivo da wikipedia sobre os Kotturuh: de onde eles vieram, como o dom da morte foi dado a eles, essas coisas. A realidade é que o conto narra a história do primeiro planeta a ser julgado pelos Kotturuh – Birinji. E do ponto de vista de alguém que, ou esteve lá, ou soube da história direto da fonte – se levarmos em consideração que uma das histórias que está por vir tem como personagem o último dos Kotturuh, eu apostaria vintão que é ele quem está narrando.

O povo de Birinji só queria ficar quieto no canto deles. Mas, aparentemente, os Kotturuh têm o dom de ver todas as linhas temporais para poder fazer o seu julgamento e sentenciar o tamanho da expectativa de vida de cada espécie, com base no que pode vir acontecer – uma espécie de Minority Report dos Tempos Sombrios.

Também sabemos um pouco mais deles – como são, como se movimentam… o visual deles me parece muito com o dos Dementadores, mas numa versão mais bem acabada.

O Alvorecer dos Kotturuh.

Birinji foi o primeiro planeta a ser julgado, porque até a Morte tem que começar de algum lugar.

Ninguém está dizendo que os Tempos Sombrios eram perfeitos – mas nosso universo era tão novo que até os Eternos eram jovens. Nós éramos todos imortais naquela época, exceto pelos acidentes (tipo uma unha do dedão inflamada ou uma guerra de nêutrons).

Foram os Kotturuh que introduziram o conceito de vida útil. E eles começaram com os Birinji.

Eles apareceram um dia na praça da cidade. Quer dizer, um dia foi uma praça; hoje em dia estava mais para o pasto da cidade – um pedaço de prado marrom arroxeado, tranquilo, onde as mariposas de cristal pairavam e os pássaros giravam. E um dia, como eu ia dizendo, os Kotturuh apareceram.

Eles eram estáticos como estátuas – sua imobilidade chamava a atenção das pessoas. O povo de Birinji achava que tinha dominado a arte da contemplação silenciosa, mas nada como os recém chegados, que pareciam tirar a luz do ar. Eles estavam lá enquanto os aldeões vagavam para os pilares de sal pela manhã, e eles ainda estavam lá quando voltavam ao pôr do sol. Três figuras, envoltas em mantos que tremeluziam e dançavam enquanto seus cálculos fluíam sobre elas – essa foi a única coisa que dizia respeito aos Kotturuh que se movia. Seus tentáculos de pedra cintilante pendiam como se sentissem o gosto do ar, seus rostos envoltos em bandagens costuradas em ouro com palavras de uma era anterior. Eles estavam esperando.

O céu azul ao redor deles escureceu e o ar pairou pesado com uma névoa sinistra.

Finalmente Majoral (a mãe do pai do pai de seu pai havia sido prefeita da vila quando esta poderia ser chamada de cidade) se aproximou. Ela era educada e sorridente, e perguntou se eles precisavam de sal. Ou água. O povo de Birinji era calmo e sábio e parecia educado perguntar sobre necessidades básicas.

Ela perguntou várias vezes antes que uma das figuras a reconhecesse. Ele se virou para ela, a grama balançando na névoa densa.

“Ah”, disse o Kotturuh, e sua voz soou como um sino distante. “Perdoe-me, pequenina, eu estava pensando nos insetos. De como deve ser o sabor deles.”

“As mariposas de cristal?”, ela franziu a testa. “Você quer comê-los?” Ninguém jamais havia tentado isso, mas estas eram pessoas estranhas e ela tinha ouvido falar que pessoas estranhas eram… estranhas.

“Não,” os tentáculos do Kotturuh finalmente se moveram, as figuras se mexendo e dançando em sua capa. “Estamos saboreando o futuro deles.”

“Oh”, disse o mais próximo que Birinji tinha de um líder. Ela havia sido criada para ser educada. “E… qual o gosto deles?”

O Kotturuh voltou-se para seus colegas. Eles se curvaram um para o outro, tão rápidos quanto montanhas. Então eles se viraram de volta para Majoral. “Uma boa pergunta.”

“E?”

“Eles têm potencial”, anunciou o Kotturuh. “Em alguns bilhões de anos, talvez. Dado o clima, dadas as mudanças na órbita causadas pela perda iminente de sua lua durante a guerra, e seu segundo sol se transformando em nova, então sim, as mariposas de cristal podem florescer.”

“Nosso sol, com licença…?”

Mas o Kotturuh, tendo começado a falar, estava em um fluxo. “Há uma chance igual de que que este mundo se torne um deserto ou uma floresta verdejante – de qualquer modo as mariposas de cristal sobreviverão.”

“E nós?”

“Ah”, disse o Kotturuh depois de uma longa pausa.

“Ah?”

O Kotturuh abriu seus tentáculos na brisa, e o que quer que estivesse por trás da máscara cambiante parecia estar sugando o ar. “Nós avaliamos a sua espécie.”

“Entendo,” Majoral estava começando a se perguntar se eles precisariam perseguir essas pessoas com armas como fizeram com os ladrões de sal no último Nascer das Sombras. O povo de Birinji era devotado à paz, sabedoria e quietude e consideravam todos os conflitos cansativos. “Por quê?”

“Nós somos os Kotturuh”, o alien admitiu. “É o que fazemos.”

Continuou explicando que essa era a sua Grande Tarefa. Os Kotturuh acreditavam que eles sempre haviam feito isso – através dos universos anteriores a este e para todos os universos que viriam depois. Era seu dever trazer o dom da morte para toda vida. Sua missão era visitar todos os mundos e avaliar todas as espécies – experimentando seus fluxos temporais e avaliando o valor que eles ofereceriam à eternidade.

“Para nós, o universo é uma canção,” concluiu o Kotturuh, “e nós desejamos torná-lo belo e harmonioso”.

“Certo,” disse Majoral, confusa e ligeiramente nervosa. “E vocês vieram aqui para nos dizer que estamos fazendo algo errado?”

“Sua sabedoria não é exagerada,” o Kotturuh parecia quase triste. “Uma orquestra não funciona se todos os instrumentos estiverem tocando ao mesmo tempo. Alguns contribuem tocando apenas uma nota breve. E outros por não serem ouvidos.”

“Para onde isso vai?” de novo, Majoral estava pensando na loja de armas. Mas essas criaturas não eram ladrões de sal. Eles eram quase poeticamente aterrorizantes.

Todos os três Kotturuh se ergueram, seus tentáculos e garras espalhados no ar. “Nós os avaliamos em todo o planeta,” disse o líder. “Vocês uma vez prometeram – vocês, uma vez, construíram cidades e viajaram por toda parte e fizeram as pazes com impérios. Mas agora…”

“Nós não fazemos mais muito disso”, explicou Majoral. “Agora nós contemplamos nossa própria simplicidade.”

“De fato”, disse o Kotturuh. “É uma pena. Você tiveram uma chance – havia uma espécie com a qual vocês poderiam ter negociado, mas recusaram. Com suprimentos negados, eles se tornaram belicosos. Em alguns séculos eles destruirão sua lua – e numa eventual represália o seu sol vai ser acidentalmente atingido. Tudo poderia ter sido evitado.”

“Mas…”, disse Majoral. “Não tínhamos ideia! E ainda não aconteceu! Eu sinto… eu sinto como se vocês estivessem dizendo que somos culpados de algo sobre o qual nada sabíamos.”

“De fato”, os Kotturuh se curvaram, um processo lento e metódico. “Vocês talvez tivessem algo a oferecer à Grande Canção, mas não mais. Assim, a eternidade é desperdiçada com vocês. Mas as mariposas de cristal… nós cremos que elas farão o máximo com o que restar. Eles se elevarão.”

Majoral gritava com eles, tentando entender o que diziam. Ela também estava enviando as mães da tribo para buscas as armas. Até o momento esses estranhos visitantes haviam oferecido apenas palavras, mas armas nunca faziam mal.

O líder Kotturuh ergueu a mão. “Não se preocupe, pequenina,” sua voz surpreendentemente gentil. “Não quremos fazer mal a vocês.”

“Não?”

“Estamos simplesmente ajustando a expectativa de vida de sua espécie de acordo com o valor que vocês oferecem.”

“O que é expectativa de vida?”

“Atualmente cada um de vocês vai viver e proliferar para sempre. A expectativa de vida reduz isso. Vocês agora vão ocupar o tanto do universo que vocês merecem. E outros farão melhor uso do espaço.”

“As mariposas de cristal? Sério?” Majoral riu, particularmente quando uma passou zunindo sem rumo por ela.

“Oh, sim,” o rosto enfaixado do Kotturuh parecia sorrir, “Estou satisfeito que você concorde.” As três criaturas se curvaram uma para a outra e então se viraram.

“Esperem!” Majoral os chamou, perguntando-se onde as mães da tribo estariam com as armas. “Vocês já vão? É só isso?”

“Os Kotturuh se voltarm para ela. “Sim. Nós já os julgamos, nós demos nosso presente. Agora você pode começar a gritar.”

“Desculpa?” Majoral disse. “Eu me sinto igual”. Ela olhou para as pessoas que observavam. Todos praticamente iguais. Essas criaturas simplesmente vieram para dar-lhes um sermão? Ou havia mais?

“Sua nova expectativa de vida será de três meses”, disse o Kotturuh. “Três voltas da lua.” Pausa. “É uma bela lua. Que pena.”

“O que você quer dizer com três meses?” Majoral sentiu algo na garganta, algo além do medo. Ela podia ver o pânico se espalhando entre a população. Pânico e algo mais.

“Toda a sua espécie agora viverá por exatamente três meses. Uma quantidade inofensiva de tempo. A menos que ela alcance vocês.”

“Mas… mas…” gritou Majoral, e então ficou sem palavras.

No momento em que o Kotturuh voltou para seus companheiros, havia pouca coisa sobrando além de uma pilha de poeira. Poeira e mariposas de cristal zunindo acima dela.

À distância, os gritos se espalharam e ecoaram por todo o planeta. Tudo havia corrido bem. Haveria conflito e discussão entre os Kotturuh antes que o planeta caísse em silêncio – mas eles precisavam começar por um algum lugar.

Os Kotturuh se afastaram para seguir os seus caminhos.

“Este foi o primeiro planeta,” disseram uns aos outros. “Mas temos muitos mais para visitar.”

E assim eles começaram.

E aí, o que acharam do conto? E dos Kotturuh?

A próxima peça em Time Lord Victorious é o primeiro dos livros, The Knight, The Fool And The Dead, que lança dia 01/10, e depois vem a parte 2 da HQ da Titan. Outubro também é o mês de lançamento dos primeiros áudios da Big Finish, com as Short Trips dos Mestres e a primeira parte da trilogia do Oitavo.

Preparados pra maratona? Então acompanhem as reviews e notícias sobre esse mega evento nas fan accounts tupiniquins, seja nos sites, seja nas redes sociais. Quer ver o que já rolou antes em TLV? Leia nossa resenha da HQ do Décimo Doutor, Defender of the Daleks #1, ou veja o guia dos Tempos Sombrios, com direito a um rosto familiar!

E fica sempre aquele pedido: consumam TLV responsavelmente: se só dá de graça, tem coisa de graça; se estiver com algum dinheiro sobrando, junta uns dois ou três amigos (ou quatro, ou cinco) e racha o custo. Vamos mostrar pra BBC que ela pode investir no fandom brasileiro. Afinal, se a gente consome em inglês, imagina o quanto vamos consumir em português?

Até a próxima!





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