Doutor Quem – O Choque dos Silurianos, o audiodrama mais polêmico que mamilos

Saudações, inquilinos do Puxadinho. Hoje quem tá com o teclado não é a ADM 1, mas sim os ADM 5 e 6. Claro que isso não faz lá muita diferença, já que nossas identidades são secretas porque todos estamos fugindo dos Judoon. Mas isso é papo pra outra hora.

Estamos aqui em dose dupla porque não pudemos deixar de notar o reboliço que esse audiodrama tupiniquim causou, portanto trouxemos duas opiniões para (tentar) balancear o jogo. Antes de começarmos, é importante dizer que nós apoiamos o projeto. Além de ser um puta exercício de criatividade, é uma forma de incentivar a interação entre os fãs e despertar o interesse pelo Universo Expandido. E, como vocês sabem, a gente ama o Universo Expandido por aqui.

Agora sem mais delongas, vamos de resenha. Por ordem numérica, para não dar briga. Ou seja, o ADM 5 começa.

Doutor Quem e o paradoxo de oportunidades perdidas – por ADM 5

Tá, galera. Antes de começar eu quero dizer que conheço boa parte das pessoas envolvidas com a produção deste áudio. De forma alguma eu acho que são pessoas que carregam qualquer tipo de preconceito com elas. Pelo contrário, são pessoas que se esforçam sempre para promover o respeito dentro do fandom. Tendo dito isso, o audiodrama perde a oportunidade de abordar o racismo de forma mais séria e até mais respeitosa.

A história começa com a Amélia e o 11º Doutor (que parece muuuuito o Lázaro Ramos, *piscadinha pra câmera*) dentro da TERDE. A Amélia tá lendo “As Reinações de Narizinho” de Monteiro Lobato, o que faz o Doutor ter a ideia de visitar Monteiro Lobato, sugerindo até que ele pudesse autografar o livro de Amélia.

Agora, todos nós sabemos que o Monteiro Lobato era um racistinha de merda, chegando até a apoiar o Klux Klux Klan. Quando eu vi que a história nos daria o encontro do Doutor negro e um racista, eu pensei “GENIAL!”. Afinal, a gente sabe que Doctor Who sempre aborda esses assuntos de forma inteligente, nos fazendo refletir/educando muita gente, etc, etc.

A história EM SI não é ruim, mesmo não tendo nada de inovador. O Monteiro Lobato acaba caindo numa plot genérica dos silurianos pra dominar o mundo. O áudio não passa pano pro Lobato. Ele é retratado como um racista e isso é um ponto central da trama. Até mesmo depois de presenciar um embate de diferentes raças (Silurians X Humanos) ele não muda sua perspectiva sobre o mundo. O que é um ponto positivo, afinal o racismo não some da noite pro dia. Mas a relação das coisas é meio estranha, principalmente do ponto de vista do Doutor.

Eu sei que o Doutor não se guia muito pela sua aparência nas viagens. Por isso ele já levou a Martha e a Bill para épocas racistas. Por isso a Doutora acabou caindo numa caça às bruxas. Eles não… priorizam a aparência. A 13 até esquece que é mulher de vez em quando, a gente entende. Mas o fato do Doutor sugerir que sua companion busque o AUTÓGRAFO de um famoso racista é problemático. Existem formas muito simples de se resolver esse problema (e vocês podem lê-los na resenha do ADM 6 mais abaixo).

A Amélia percebe no fim que o Monteiro é racista, depois que a morte de um personagem faz ele dizer que “ele era um bom homem, nem parece que era preto”. A frase é forte, e resulta no seguinte diálogo dentro da TERDE:

Amélia: Doutor, eu ouvi direito o que ele acabou de falar?

Doutor: Sim. Sim, você ouviu. É inacreditável, não é? (Pausa) Ah, droga! Droga, droga, droga!

Amélia: O quê- O quê foi, Doutor?!

Doutor: Eu esqueci de pedir pra ele pelo seu autógrafo! E foi logo por isso que a gente veio parar aqui! Droga!

WTF?! Olha, me desculpem, mas pra mim isso demonstra uma IMENSA falta de sensibilidade. Além de cimentar que ele sabia desde o início sobre o racismo do Monteiro e MESMO ASSIM sugeriu o encontro, o Doutor ainda fica chateado por ter ESQUECIDO de pegar o bendito autógrafo? Ele não mudou de ideia? Não viu como o cara era totalmente insensato e  era cheio de ódio? Não, Ele AINDA QUERIA o autógrafo pra companion dele.

Isso já até independe da cor da pele do Doutor. Esse era o momento ideal para termos um discurso do Doutor falando sobre como essas coisas passam, o ódio não vence, sei lá. Qualquer coisa seria melhor que isso. Eu só fiquei tão decepcionado com o Doutor assim quando a 13 se recusou a abraçar o Graham (eu não superei aquilo ainda).

E, detalhe, isso não é responsabilidade apenas do roteirista. TODOS os envolvidos no áudio poderiam ter falado. Diretor, produtor executivo, atores. Todos têm voz em uma produção, principalmente uma produção fanmade. Acredito na boa intenção de todo mundo, mas recomendo mais cuidado e sobriedade.

Num nível técnico, o áudio é bom. O ator que faz o Monteiro Lobato é maravilhoso e conseguiu imitar bem a voz do Monteiro original. O Pezz Adello é um personagem engraçado e o ator potencializa o humor de forma inteligente. Os efeitos sonoros estão maravilhosos. Já as falas da Amélia estão com uma qualidade ruim, mas imagino que seja culpa da gravação e não da edição. No fim, eu fiquei tão puto com a falta de noção do 11 que nem deu tempo de falar do gauchês fake da companion. Fica pra próxima.

Doutor Quem – O Choque dos Silurianos – por ADM 6

Sem dúvida a criação de um Doctor Who “brazuca” foi uma das ideias mais interessantes e engraçadas que os rubians já tiveram. Além das inúmeras possibilidades de encontros e cenários, uma história ambientada no Brasil traz um certo calorzinho ao coração. Em se tratando de uma produção amadora e voluntária, e considerando a dificuldade de gravar no mesmo espaço no atual momento, há uma série de descontos ao avaliar o projeto, seja na parte técnica, dublagem ou roteiro.

Dos aspectos técnicos, a edição fez o que pôde para equalizar o áudio da Amélia com o dos demais personagens, mas o resultado final fica baixo, soando como se a dubladora estivesse em outro lugar. Alguns efeitos e músicas são um pouco inconstantes com as vozes também, sobressaindo indevidamente. Apesar disso, o uso de temas do 11º Doutor e de alguns efeitos especiais enriquecem bastante o audiodrama, mesmo que às vezes isso ainda deixe uma certa sensação de vazio no todo.

A dublagem tem seus altos e baixos. O Doutor por muitas vezes não convence tanto quanto a imponência do personagem demanda e a entonação da voz de alguns personagens é um pouco monótona e seca. Outro ponto fraco é o falso gauchês da Amélia que cá e ali soltava “bahs” e “tchês” sem um sotaque gaúcho na fala toda, o que soou bastante deslocado. Mas sem dúvidas o maior destaque fica para André Oliveira com sua imitação perfeita de Monteiro Lobato. Para quem conhece a voz esganiçada e rouca do autor, vai notar o quão idêntica ficou a personificação.

Sobre o roteiro, existem diversos apontamentos a se fazer. Há um belo empenho em “abrasileirar” os termos e trejeitos da série sem medo, o que rende alguns momentos curiosos e às vezes engraçados. Apesar de simples e direta, a trama entretém e diverte, com o ritmo seguindo normalmente. Há pouca fluidez nos diálogos (mesmo com a boa dinâmica doutor/companheira), com alguns soando bem artificiais, em especial quando os discursos entram em cena. Falta uma introdução melhor a esse elemento que, se não for feito direito, acaba caindo no cafona.

No entanto, é necessário pontuar a falta de senso ao tratar do racismo de Lobato, ainda mais com um protagonista negro. A ideia de visitar o escritor parte do Doutor, o que ainda poderia se argumentar na falta de conhecimento da vida de Lobato, mas há uma inconsistência quando o próprio Doutor afirma já saber do racismo do autor. Se sabia, porque foi atrás dele? O roteiro poderia resolver de duas formas bem mais simples: partir da Amélia a ideia da visita, a contragosto do Doutor ou, melhor ainda, a TERDE se teletransportaria para o Brasil da década de 20, causando um encontro mais casual com Lobato. Ao final, após ser menosprezado pelo escritor, o Doutor ainda quer um autógrafo do mesmo, porém a Amélia a impede pois presenciou seu racismo. A sensação que fica é que o racismo e eugenia de Monteiro Lobato em nada mudam a perspectiva que o Doutor tem dele, como se não importasse. Honestamente eu não vejo maldade por parte do roteirista, e sim uma ingenuidade tremenda ao tratar do tema. Uma revisão mais apurada pode ajudar para que situações esquisitas como essa não se repitam.

Como dito anteriormente, eu me diverti com o audiodrama, mesmo com vários apontamentos, e quis ouvir até o final. Quero muito ver os próximos projetos, apenas espero que se tenha um cuidado maior ao tratar temas tão espinhosos.

E você? O que achou dessa produção brazuca? O que espera dos próximos áudios de Doutor Quem?

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