Shadow of the Daleks Part 1 (aquele em que o Quinto foi parar na Time War…)

Já diz o ditado que a necessidade é a mãe de todas as invenções. E se na TV é a falta de verba que faz com que a série seja obrigada a ser criativa, foi a pandemia que obrigou a Big Finish a fazer um de seus melhores áudios.

Quando o vírus obrigou o mundo a se fechar, a Big Finish precisou fazer adaptações nas suas Monthly Adventures. Segundo o patrão Nick Briggs, em entrevista à Vortex Magazine, eles precisavam de dois lançamentos que pudessem ser feitos com um Doutor e quatro atores convidados, todos gravando de casa.

Foi assim que surgiu Shadow Of The Daleks, uma aventura em duas partes, com oito histórias de meia hora cada, em que o Quinto Doutor aterrissa em diferentes lugares do tempo e do espaço e se encontra com as mesmas pessoas – quer dizer, com os mesmos rostos em pessoas diferentes – e um ou outro Dalek aparecendo. Mas não qualquer Dalek; são pimenteiros genocidas oriundos da Guerra do Tempo.

O elenco em todos os áudios é sempre o mesmo: Peter Davison, Dervla Kirwan (você conhece ela como a cybercontroller de The Next Doctor), Anjli Mohindra (a Rani de The Sarah Jane Adventures) e Jamie Parker (que é o Harry Potter na peça Harry Potter And The Cursed Child), com Glen McCready fazendo personagens pontuais em algumas das histórias – e, óbvio, Briggs fazendo a voz dos Daleks.

Nessa primeira parte (lançada em outubro de 2020) nós temos as quatro primeiras histórias. Mas ao invés delas serem separadas, como nos boxes da série Adventures e nos especiais do Oitavo Doutor, elas formam uma faixa só de quase duas horas.

Vamos à review?

1.1. Aimed At The Body (James Kettle)

“O encontro com uma notória lenda do críquete deveria ser o ponto alto do dia do Doutor. Mas a aparição inesperada de um velho inimigo está prestes a mandar o Doutor em uma jornada por respostas”

Essa história se passa nos anos 30 no deserto da Austrália. Douglas Jardine é um personagem real: ele foi treinador da seleção inglesa de críquete e quase causou um incidente diplomático com o “escândalo Bodyline” – ele mandava o arremessador acertar o corpo do batedor, e não no bastão (até o dia que um batedor quase morreu com uma fratura craniana causada por uma bolada…).

Jardine é o personagem principal aqui. Ele, a namorada Flora e mãe da moça estão fazendo um tour pelo Outback, mas o guia é ferido e eles estão sem água no meio do deserto. Mrs. Calderwood tem uma alucinação por conta do calor e vê uma estátua de metal com um olho só ao longe. Mas o ambiente se mexe e muda. Nessa hora eles encontram o Doutor, que errou o caminho para Adelaide onde ele ia ver a partida de críquete.

Quando o Quinto encontra Douglas Jardine ele fica todo fanboy e começa a falar do legado do treinador e de como ainda se fala dele no futuro. O Doutor então, os ajuda, mas o ambiente muda novamente e a Tardis não está mais onde deveria.

E a cada revés Jardine vai ficando mais irascível. O Doutor pergunta a Flora sobre o relacionamento deles, já que a moça estranha o comportamento do namorado. Até que num acesso de fúria Jardine revela sua verdadeira natureza: ele é um Dalek.

O Doutor dá uma surtada, tenta descobrir mais sobre o que está acontecendo, mas em mais uma mudança de ambiente a Tardis reaparece e quando eles chegam até ela, Douglas, Flora e a mãe desaparecem, deixando o Doutor com um cachorro sarnento atrás da orelha.

1.2. Lightspeed (Johnathan Morris)

“As pistas levam o Doutor a uma espaçonave em um futuro distante – onde ele se vê preso em um terrível plano de vingança”

Imagina um festival de desgraça. Cada vez que o Doutor dá um jeito em uma, outra aparece. Tudo isso em um ônibus espacial, onde ele está meio sem entender o que se passa e encontra as mesmas três pessoas da história anterior – ou pessoas muito parecidas; agora eles são um padre, uma comissária de bordo e uma passageira.

Com o que o Doutor lida nesse áudio:

  • piloto e copiloto mortos
  • sabotagem
  • vazamento de combustível do reator
  • sequestro
  • nave indo ao encontro de um campo de asteroides
  • nave viajando ao dobro da velocidade da luz
  • (e a minha predileta) piranhas voadoras comedoras de aço

Eu não tenho nem por onde começar a explicar como tudo isso acontece em 28 minutos de áudio. Frenético é pouco. Chega uma hora que até o Doutor entra no modo “pqp, o que vem agora?”. Um daqueles áudios que mereciam ser adaptados para a TV, seria legal.

1.3. The Bookshop At The End Of The World (Simon Guerrier)

“É muito fácil esquecer da vida e se perder em uma livraria. Em algumas mais do que em outras…”

Em uma noite de chuva o Doutor entra em um sebo que também funciona como bar (nota da redação: meu sonho). Mas ele se esqueceu de quem é. Ele só sabe que já viu aquelas pessoas antes, só não sabe onde.

E ele vem tendo visões de guerra. Do tempo sendo manipulado, mudado. Mas não é a guerra dele; é a guerra de um eu futuro. É a guerra daquelas pessoas ali também, que têm memórias do que não viveram – ou do que já viveram, mas esqueceram.

É um áudio que parece se passar num sonho. Pra mim, é um áudio com ambientação de filme francês de arte dos anos 60. Enquanto eu lia a Vórtex Magazine pra escrever esse texto, uma música voltava à minha cabeça quando eu chegava nessa história: Celos, do Gotan Project, uma banda franco-argentina. É esse o clima que o áudio me passou.

Depois eu fiquei pensando: essa é a maravilha do áudio, enquanto meio. Pode ser que você ouça e imagine algo completamente diferente – e tudo bem. Qual a sua sensação?

1.4. Interlude (Dan Starkey)

“O teatro é o que há! É? O Doutor está atado a uma companhia de teatro – mas para quem eles estão atuando?”

Essa história foi escrita pela nossa batata clonada guerreira que faz as vezes de mordomo vitoriano Strax. Ou melhor, pelo Dan Starkey – que sempre foi um grande fã de Doctor Who e, em especial, do Quinto Doutor.

O Doutor aterrissa na Florença renascentista. Mal ele põe os pés pra fora da Tardis, a nave é basicamente guinchada e levada embora. Enquanto ele tenta argumentar com o guarda, Bianca cruza o seu caminho. Ela é uma atriz em uma companhia de teatro que vai se apresentar ao Duque de Florença e convida o Doutor a fazer parte da trupe.

Mas algo está errado. Roma caiu e Florença agora é o centro do Império. Mas não há mais imperador, nem os Medici mandam na cidade; há apenas o Duque – uma figura misteriosa de um olho só.

O Doutor começa a ter episódios de tontura e esquecimento. Ele sente um filtro de percepção, mas nenhum dos outros membros da trupe entende o que ele está falando. No dia da apresentação o filtro é mais forte: enquanto os outros três veem uma sala cheia, o Doutor só vê uma pessoa – o Duque. Quando a Tardis é entregue ao Duque como um presente, Daleks aparecem e matam o Quinto. Mas a figura misteriosa se revela, e é o próprio Doutor – e nessa hora é engraçado, porque os outros personagens perguntam o que aconteceu (já que eles viram o Doutor morrer) e o Quinto responde que não faz a mínima ideia; que a única coisa que ele sabia era que a Tardis tinha sido levada e ele precisava recuperá-la.

Esse áudio espelha o próprio projeto: quatro atores escolhendo seus papeis em uma peça. Por mais que Davison seja sempre o Doutor, nem sempre ele é o protagonista; e mesmo os “coadjuvantes” tem graus diversos de participação nas histórias. E também mostra o que a Big Finish faz de melhor: usar elementos conhecidos e colocá-los um passo além.

Só não ganha 10/10 porque ainda falta a segunda parte. Shadow Of The Daleks 2 vai ser lançado em novembro e eu mal posso esperar.

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