Quem é Madame Ching?

Estamos de volta, munidos de esfregão e balde, para limpar o convés desse site depois de algum tempo parado no estaleiro. E voltamos com o nosso novo imediato, menino Alexandre, vulgo ADM 14 – e que, para minha grande surpresa, é um entusiasta de histórias de piratas.

O trailer de Legend of the Sea Devils finalmente foi liberado ontem, dia 02 de abril de 2022, e traz a volta dos Sea Devils, Dan parecendo que vai pra uma festa a fantasia, Yaz fazendo referência ao Chaves e Madame Ching?

Espera um pouco. Madame Ching? Quem é essa? Então pega a pipoca e vem ler essa pequena lição de história sobre essa mulher que singrou os mares da Ásia no século XIX e deixou muito homem com medo do seu poder.

Quem foi Madame Ching – Por Alexandre D.

A BBC escolheu muito bem a personagem histórica para o especial “Legend of the Sea Devils”: Ching Shih, a Rainha Pirata, a qual será vivida pela atriz chinesa Crystal Yu no especial que irá ao ar no domingo de Páscoa, 17 de abril de 2022.  Ching Shih teve uma vida difícil desde cedo, mas se empoderou ao longo dela e se tornou a mais bem sucedida pirata da história.

Normalmente, quando o assunto é pirata e corsário é mais comum lembrar de nomes como os ingleses Edward Teach (Barba Negra) e Sir Francis Drake, o francês Robert Surcouf, o turco otomano Hayreddin Barbarossa (Barba Ruiva) e outros.  Esta lembrança normalmente vem de algum filme ou série em que eles apareceram, o que acabou ajudando na popularização deles.

Ching Shih até aparece em uma lista ou outra ao lado dos nomes acima quando se busca pelos principais piratas da história.  Porém, mesmo o fato dela ter inspirado (diretamente, por assim dizer) a criação da personagem Madame Ching de “Piratas do Caribe: No Fim do Mundo”, um dos maiores blockbusters do cinema, isso parece não ter sido suficiente para ela ser mais conhecida.  Provavelmente muitos que estão lendo esse artigo nunca ouviram falar dela ou sequer sabiam que houve uma mulher pirata de verdade.  Isto é até compreensível porque o próprio estereótipo de um pirata ou de um corsário prevê uma figura masculina, desassociando esse tipo de aventureiro marítimo de mulheres, ainda mais de uma que acabou se tornando a mais bem sucedida no ramo da pirataria.

Nascida Shi Yang, em 1775, na província de Guangdong (atual província de Cantão), na costa sudeste da China, logo cedo, aos 15 anos, se tornou prostituta para complementar a renda familiar, pois era uma província muito pobre.  Por outro lado, ela soube tirar proveito dessa condição um tanto indesejada.  Devido a sua beleza e à forma como tratava muito bem seus clientes, ela acabava atraindo aqueles de alto nível, incluindo comandantes militares e comerciantes ricos.  Inteligente, seduzia-os para deles tirar informações sigilosas e privilegiadas.

Em 1801, aos 26 anos, ela conheceu o notório pirata Zheng Yi, o qual ficou fascinado com a beleza dela e com a capacidade que ela tinha de exercer influência sobre os clientes e negociar segredos.  Não demorou para que Zheng Yi propusesse casamento à Ching Shih.  Sempre astuta, ela aceitou mediante um acordo pré-nupcial: 50% dos ganhos de Zheng Yi e controle parcial da frota pirata dele, a Red Flag Fleet (ou Frota da Bandeira Vermelha), a mais temida no mar da China daquela época.

Zheng Yi aceitou casar-se com Ching Shih, embora isso não seja unânime entre os historiadores, isto é, há relatos de que Zheng Yi mandou sequestrar Ching Shih do bordel onde ela trabalhava.  De qualquer maneira, eles acabaram se casando e assim começava a história de Ching Shih na pirataria do século 19.

Sob o comando de Zheng Yi e Ching Shih, a Red Flag Fleet se tornou a maior frota pirata do planeta, chegando a ter 1800 embarcações (mais especificamente, juncos dotados de 40 canhões, aproximadamente) e milhares de piratas.

Mas o casamento não durou muito.  Pouco mais de 7 anos depois, Zheng Yi morreu, em 1807, aos 42 anos.  Também não há consenso entre os historiadores sobre a causa da morte dele.  Alguns afirmam que ele foi assassinado no Vietnã, que era um dos locais onde a Red Flag Fleet operava; outros dizem que ele despareceu no mar, durante um tsunami ou um furacão.  O corpo dele nunca foi encontrado.

Com a morte de Zheng Yi a sucessão acabaria ficando com Cheung Po, que era um jovem pescador que Zheng Yi havia capturado quando ele tinha 15 anos, forçado a se tornar pirata, mas que depois acabou sendo adotado e ganhou direitos de herdeiro e filho de Zheng Yi.  Assim, ele era o segundo em comando da Red Flag Fleet e o herdeiro direto do comando dela.  Por outro lado, após a morte de Zheng Yi, começou uma certa disputa interna que poderia separar a frota.   

Usando de sua experiência, vivência, astúcia e, também, de seus dotes femininos, Ching Shih conseguiu aliados na família de Zheng Yi (e fora também) além de conquistar o próprio Cheung Po.  Tanto que, duas semanas após a morte de Zheng Yi, ela anunciou que se casaria com Cheung Po.  Então, na prática, o comando da Red Flag Fleet acabou ficando nas mãos de Ching Shih, a quem Cheung Po era totalmente leal.

Sob o comando dela, a Red Flag Fleet capturou diversas vilas costeiras, que fornecia tudo que os piratas precisavam, desde comida e provisões até bens, além de pagar impostos e tributos.  Dominou totalmente o mar do sul da China, aterrorizando também colonizadores ingleses e franceses que estavam nessa região na época.  Nenhum navio se movia pelos mares da região sem o conhecimento de Ching Shih e sem pagar taxas a ela.  Caso se recusassem, eram imediatamente atacados e afundados.  Assim, Ching Shih dominava, com a Red Flag Fleet, tanto as terras costeiras quanto o mar.

Quando enfrentou e derrotou a marinha imperial chinesa, ela ofereceu uma oportunidade aos derrotados para não serem punidos: juntar-se à Red Flag Fleet.  A adesão foi muito grande, aumentando mais ainda o número de piratas. Em contrapartida, isto causou uma grande evasão de marinheiros da marinha imperial.

Entretanto, a história mostra que, por mais forte e maior que seja um domínio ou poderio, nada é para sempre.  Assim foi também com Ching Shih.  A Red Flag Fleet já havia vencido o Império Português em dois confrontos.  Mas num terceiro, em 1810, a marinha Portuguesa veio melhor preparada e não só venceu como devastou a Red Flag Fleet.  

Por sorte, algum tempo antes, o imperador chinês Jiaqing, que não conseguiu vencer Ching Shih e sua frota, havia oferecido uma anistia como tentativa de colocar fim no domínio dos piratas e pacificar os mares.  Sem muitas opções, com uma frota desestruturada e, ainda segundo alguns historiadores, enfrentando novas disputas internas de poder, a Rainha Pirata acabou aceitando a oferta do imperador.

Assim, ela e todos os piratas se renderam e o imperador permitiu que eles não só voltassem para casa sem maiores punições como também levassem consigo o que tinham conseguido adquirir durante os anos de pirataria e pilhagem.  Vários até conseguiram empregos depois tanto na área militar quanto no governo chinês. Cheung Po, o então segundo marido de Ching Shih, tornou-se capitão na marinha imperial chinesa.  Eles teriam ainda um filho e uma filha nos anos seguintes.  Porém, Cheung Po morreu, no mar, em 1822.

Ching Shih, rica e anistiada pela dinastia Qing (a última dinastia imperial antes da China se tornar república) mudou-se para Macau com os filhos e abriu uma casa de jogos.  Também entrou no negócio do comércio de sal. No final de sua vida, ela ainda abriu um bordel em Macau.  Ela morreu aos 69 anos, em 1844. 

Código de conduta na frota

Empoderada à frente da Red Flag Fleet, Ching Shih estabeleceu regras para serem seguidas por todos os piratas da frota, no intuito de mantê-la unida e disciplinada.

Algumas eram bem severas: piratas que dessem ordens não autorizadas ou, ainda, não cumprissem ordens eram executados imediatamente, sem chance de se justificarem. Tudo que era apreendido passava por inspeção.  Se, durante essa inspeção, algum pirata escondesse algo que havia sido apreendido uma parte de seu corpo era cortada.

Mas haviam algumas no intuito de incentivar o bom comportamento, tais como piratas leais e honestos eram recompensados generosamente, servindo de exemplos para outros.

Ching Shih estabeleceu regras específicas para mulheres: as que fossem aprisionadas deviam ser tratadas com respeito.  As mais fracas, grávidas e pouco atraentes eram libertadas o mais rápido possível enquanto as mais atraentes eram mantidas para pagamento de resgate.  Nesse contexto, os piratas tinham liberdade para se casarem com as mais atraentes desde que houvesse consentimento das reféns. Por outro lado, caso houvesse estupro, o estuprador era imediatamente enforcado.  E mesmo sexo consensual com reféns, antes do casamento, eram punidos e a punição incluía também a refém.  De forma similar, infidelidade também era considerada ofensa grave, punida com execução.

Vários nomes

Ching Shih nasceu sob o nome Shi Yang mas também foi conhecida por Shi Xianggu, Madame Ching, Zhèng Shì, Jehng Sih e Cheng I Sao, este último significando “viúva de Cheng I”.  E quem foi “Cheng I”?  Este é um dos também vários nomes pelo qual Zheng Yi, primeiro marido da Rainha Pirata, era conhecido.  Outros nomes incluíam Ching Yih, Cheng Yao-I, Cheng Wen-Hsien, e Cheng Yud.

No trailer do episódio “Legend of the Sea Devils” e mesmo nas imagens promocionais o personagem ao lado de Madame Ching parece ser tão importante quanto ela em termos de poder, pelas vestimentas e pela forma de agir e lutar.  Isto levaria a crer tratar-se de Zheng Yi, o marido da Ching Shih.  No entanto, pela ficha técnica no site do IMDb, além da Madame Ching há outros dois nomes chineses de personagens, Ying Ki e Ji-Hun, que não aparece na lista de nomes pelos quais Zheng Yi era conhecido.  Ou será que descobriremos outro nome para referenciar o primeiro marido da Rainha Pirata ?

Agora que você conhece mais sobre essa que foi considerada a mais bem sucedida pirata da história fica a pergunta: em que fase da vida dela (e como) Chris Chibnall situará os acontecimentos de “Legend of the Sea Devils” ? 

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